
eLyra 25, 06/2025: 15-28 – ISSN 2182-8954 | https://doi.org/10.21747/21828954/ely25a1
REDE INTERNACIONAL LYRACOMPOETICS
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Pedro Eiras
recuperada. Por outro lado, cada um destes elementos é repetido em diversas telas,
como unidades que o observador pode reconhecer; ou seja, conforme escreve Suzana
Vaz no catálogo da exposição, esses “ícones resumem estados interiores, sobre os quais
a consciência se concentra” (2004: s/p), e “Podemos entender a repetição do ícone
como a intenção, por parte da artista, de fazer cada objecto de cogitação permanecer
constante” (ibidem), modo talvez de estabilizar as unidades de significação desta
pintura.
É importante reler o poema de Manuel António Pina a partir da pintura de Joana
Rêgo que o inspira. Como no poema, existe na pintura um desenho – uma casa, uma
porta – e a materialidade de uma tela; mas o poema não é de todo um exercício ecfrástico,
não pretende ser simplesmente a representação verbal de uma representação pictórica.
(Além disso, pergunto a Joana Rêgo se a sequência “sobre tela imatura onde previamente
/ se escreveram palavras antigas” poderia constituir a descrição de uma fase do processo
da pintura, um testemunho ou registo da sua feitura, em atelier; a autora explica que não:
trata-se de pura imaginação pessoal de Manuel António Pina).
Por outro lado, poema e pintura partilham a mesma sugestão de instruções. No
texto que escreveu para o catálogo de Do It Yourself, o próprio Manuel António Pina
assinala: “A casa [...] é [...] o lugar da memória. Mas também a memória é construção,
paisagem construída (há uma discreta ironia nas instruções de construção com que
Joana Rêgo acompanha o seu do it yourself [...])” (2004: s/p). Ora, se no poema de Pina
encontrámos vários imperativos, a exposição de Joana Rêgo intitula-se Do It Yourself, e
esta mesma instrução aparece escrita em diversas telas (por exemplo, To Arrive where We
Started, Dwelling Places, Knowing the Places for the First Time e dois quadros intitulados,
precisamente, Do It Yourself). A pintura interpela assim o observador, convidando-o a
tornar-se também criador de formas: casas, barcos, aviões de papel. Além disso, se o
poema de Pina explica, passo a passo, como se desenha uma casa (abrindo uma porta,
escrevendo palavras antigas na tela, etc.), a pintura de Joana Rêgo inclui instruções, de
novo passo a passo, para a construção de um origami. Talvez, em suma, a construção do
poema como manual de instruções responda à proposta de pintura como instrução de
montagem de casas, barcos, aviões.
“Concreção e abstração, plasticidade e linguagem, dentro e fora são elementos
constitutivos e indicativos formais do que virá a ser esta casa”, sintetiza Paola Poma num
artigo (2020: 132) que parte precisamente de Outside/Inside para ler Como se Desenha
uma Casa. A casa a haver (mas nunca há realmente uma casa, somente a pintura da casa,
o desenho da casa, a escrita da palavra “casa”…) implica este diálogo entre linguagens,
um poema que revisita uma tela, as instruções de uma pintora (que também inscreve
palavras nos seus quadros) inspirando as instruções de um poeta (que promete ensinar
a desenhar nos seus poemas). Diálogo interartístico, entre artistas – que convoca ainda
o receptor através de instruções: do it yourself, protege-te das recordações, usa cores
morosas, desenha a casa como quem embala um remorso. E ainda, subtilmente: dobra