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Pedro Eiras
*
Universidade do Porto, Instituto de Literatura Comparada
Lição de poesia e desenho: Manuel António Pina,
Como se Desenha uma Casa
Resumo: Este ensaio procura ler o poema “Como se desenha uma casa”, de Manuel António
Pina (2011), enquanto conjunto de instruções. Observando um diálogo com a tela Outside/Inside, de
Joana Rêgo, que inspirou o poema, bem como o imaginário da casa na poesia de Manuel António Pina,
propõe-se mostrar como o poema equaciona a questão da técnica e o confronto com o desconhecido.
Palavras-chave: Manuel António Pina, Joana Rêgo, Como se Desenha uma Casa, Outside/Inside,
intermedialidade, instruções, casa
Abstract: This essay seeks to read the poem “Como se desenha uma casa” (“How to draw a
house”), by Manuel António Pina (2011), as a set of instructions. Observing a dialogue with the painting
Outside/Inside, by Joana Rêgo, which inspired the poem, as well as the imagery of the house in the
poetry of Manuel António Pina, the aim is to show how the poem addresses the issue of technique and
the confrontation with the unknown.
Keywords: Manuel António Pina, Joana Rêgo, Como se Desenha uma Casa, Outside/Inside,
intermediality, instructions, house
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Pedro Eiras
1. Memória descritiva: o poema
Em finais de 2011, Manuel António Pina publica Como se Desenha uma Casa, o seu
último livro de poemas. De que modo se pode, se deve ler um título como este? Ele
parece anunciar um manual, conjunto de instruções, o repositório de um conhecimento
técnico que é suposto o leitor aprender. Sugere-se assim uma relação de magistério e
discipulato, uma lição, a transmissão de um saber. Este livro, dir-se-ia, explica como
se desenha uma casa, ensina a desenhar (mas nem sabemos em que acepção deve ser
entendido esse verbo: desenhar como o desenhador representa uma casa já existente,
ou desenhar como o arquiteto projecta uma casa por vir?). Este livro, em suma, ensinaria
uma técnica, um domínio técnico sobre o mundo, a realidade. Mas nunca nada é assim
tão simples na poesia de Manuel António Pina, e embora o livro transmita de facto uma
certa sageza do desenho, as suas instruções atingem menos a cartografia do real do que
o mistério do irrepresentável.
Neste ensaio, gostaria de ler o primeiro poema do livro, igualmente intitulado
“Como se desenha uma casa. Cito-o na íntegra:
COMO SE DESENHA UMA CASA
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstração e sem um plano rigoroso.
(Pina 2013: 347)
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Lição de poesia e desenho
O poema estrutura-se, claramente, sobre um conjunto de instruções. Existe a
formulação apassivante do título, prometendo ensinar “como se desenha uma casa”,
sem esclarecer ao certo quem ensina e quem aprende. Depois, a instrução inaugural,
muito clara: “Primeiro abre-se a porta” (mas imediatamente se esclarece que, antes
desse primeiro gesto, na “tela imatura” já existiam “palavras antigas”; a tela revela-se
como palimpsesto, o desenho sobrepõe-se a uma escrita anterior e inalcançável). A
segunda estrofe abandona qualquer carácter pedagógico: apresenta factos inegáveis,
entre o presente e o pretérito, designando os acontecimentos do mundo sem qualquer
possibilidade de intervenção do sujeito. Só na terceira e na quarta estrofes regressamos
ao tom de um manual, com diversos imperativos: “Protege-te”, “usa”, “desenha-a. Mas
o pragmatismo destas instruções colide com a consciência de que “Uma casa é as ruínas
de uma casa, e o desenho deve escusar qualquer “plano rigoroso”.
Como escreve João Paulo Sousa, “O desenho do poema não pode [...] ser mais
preciso, ou melhor, ele é extraordinariamente preciso na sua imprecisão, porque traça a
cartografia dinâmica de uma ausência, de uma falta, sem a qual talvez nunca existisse”
(2012: 9). Penso que o jogo de frases activas e passivas, tempos e modos verbais do
poema, esta oscilação entre presente, pretérito, imperativo, factos definidos e instruções,
uma estrutura quase de manual e a deriva pela contemplação das ruínas – serve para
anunciar o domínio técnico de um desenho e, ao mesmo tempo, denunciar os limites
desse mesmo domínio. Talvez a ironia do livro consista em propor uma lição, demonstrar
que ela só pode falhar, e finalmente sugerir que apenas a compreensão dessa falha é o
único ensinamento genuíno.
Mas já é tempo de perguntar: acaso em Manuel António Pina uma casa é uma casa
é uma casa é uma casa? Ou “casa” designa aqui outra experiência que não a da literal
habitação – decerto como quando Herberto Helder, a abrir os seus Poemas Completos,
escreve: “Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como
só houve / no tempo mais antigo” (2021: 9)? Talvez aqui “casa” signifique poemas, poesia,
coisa escrita; e o poema de Herberto seja menos sobre arquitetura e urbanismo do que
sobre uma teoria da própria poesia. Semelhantemente, eis como Junichirō Tanizaki
descreve a literatura enquanto casa, no seu Elogio da Sombra:
Gostaria de alargar o beiral desse edifício que tem o nome de “literatura, escurecer-lhe as
paredes, mergulhar na sombra o que está demasiado visível e despojar-lhe o interior de
qualquer ornamento supérfluo. Não pretendo que seja preciso fazer o mesmo a todas as
casas. Mas creio que seria bom que ficasse, nem que fosse apenas uma, deste género. E para
ver o que pode resultar daí, pois bem: vou desligar a minha lâmpada eléctrica. (2008: 77)
De algum modo, também aqui “casa” é apenas um pretexto para falar de literatura,
defender uma arte poética, tornar mais explícito um metatexto.
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Pedro Eiras
Talvez não haja nenhuma “verdadeira” casa em Pina, Herberto, Tanizaki – mas
apenas a palavra “casa, e o acontecimento da abertura do sentido dessa palavra. Talvez
casa” seja um significante livre, uma metáfora, uma alegoria. Talvez o poema que ensina
a desenhar casas não seja realmente um poema sobre casas. Numa entrevista concedida
a Carlos Vaz Marques, o próprio Manuel António Pina multiplica explicações possíveis:
“Na secção mais longa do livro reuni poemas cuja matéria tinha alguma proximidade
com a matéria simbólica da casa. Seja a casa das palavras, seja a simbologia maternal,
o problema do regresso. Como todos os símbolos maternais, é simultaneamente
ameaçador e protetor” (2016: 197). Fica claro que “casa” está neste livro por “palavras”,
“simbologia maternal” ou “o problema do regresso. Mas os próprios símbolos,
acrescenta Pina, podem ser duplos, ambivalentes ou contraditórios, como os elementos
do sonho para Freud. Isto significa que a interpretação do poema implica uma explosão
de soluções hermenêuticas, que o sentido deste livro não pode ser tecnicamente fixado:
deve permanecer plural, aberto, desenho que se ensina mas nunca termina.
2. Memória descritiva: a pintura
Numa nota final do livro, o próprio Manuel António Pina explica que o poema
“Como se desenha uma casa” foi inspirado por uma pintura de Joana Rêgo (Pina 2013:
379). Trata-se de Outside/Inside, acrílico sobre tela de linho, 120 x 120cm, uma pintura
integrante da exposição individual Do It Yourself, na Galeria Fernando Santos, em 2004:
Imagem: Cortesia da artista.
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Lição de poesia e desenho
Para o catálogo (2004), Manuel António Pina escreveu um texto intitulado “Memória,
silêncio, tempo, paisagem, corpo. Terminada a exposição, Joana Rêgo ofereceu uma
tela ao poeta; foi o próprio Pina que escolheu Outside/Inside. Dois anos depois, o poeta
incluiu “Como se desenha uma casa” no pequeno livro Mesa de Natal, publicação privada
de setenta e cinco exemplares, destinada a ser oferecida apenas aos amigos próximos.
Finalmente, em 2011, Manuel António Pina publica o livro Como se Desenha uma Casa, na
Assírio & Alvim, com a pintura de Joana Rêgo reproduzida na capa:
Fonte: Editora Assírio & Alvim (https://assirio.pt)
A pintura de Joana Rêgo representa uma casa branca, num traçado minimalista,
cercada por um padrão vegetal escuro, que parece quase afogá-la. O rigor das linhas
arquitectónicas, definindo a perspectiva, contrasta com os fios de tinta que escorrem
pela tela, enfatizando a superfície bidimensional. Em rodapé, instruções de montagem
mostram como se pode dobrar uma folha de papel para construir uma casa: a figura
resultante repete – ou anuncia – a casa branca envolta pela folhagem. Outra pintura
da mesma exposição, também intitulada Outside/Inside, segue a mesma estrutura, mas
agora sugerindo a construção de um barco: dir-se-ia um pequeno, simples origami. A tela
O Lugar onde Vais de Súbito acrescenta ainda, à casa e ao barco, instruções para fazer um
pequeno avião. Em suma, todo o ciclo Do It Yourself parece remeter para reminiscências
da infância, jogos já distantes no tempo. Casa, barco, avião são aqui menos edificações
de tijolo ou máquinas de metal do que modestos brinquedos: infância perdida e
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Pedro Eiras
recuperada. Por outro lado, cada um destes elementos é repetido em diversas telas,
como unidades que o observador pode reconhecer; ou seja, conforme escreve Suzana
Vaz no catálogo da exposição, esses “ícones resumem estados interiores, sobre os quais
a consciência se concentra” (2004: s/p), e “Podemos entender a repetição do ícone
como a intenção, por parte da artista, de fazer cada objecto de cogitação permanecer
constante” (ibidem), modo talvez de estabilizar as unidades de significação desta
pintura.
É importante reler o poema de Manuel António Pina a partir da pintura de Joana
Rêgo que o inspira. Como no poema, existe na pintura um desenho – uma casa, uma
porta – e a materialidade de uma tela; mas o poema não é de todo um exercício ecfrástico,
não pretende ser simplesmente a representação verbal de uma representação pictórica.
(Além disso, pergunto a Joana Rêgo se a sequência “sobre tela imatura onde previamente
/ se escreveram palavras antigas” poderia constituir a descrição de uma fase do processo
da pintura, um testemunho ou registo da sua feitura, em atelier; a autora explica que não:
trata-se de pura imaginação pessoal de Manuel António Pina).
Por outro lado, poema e pintura partilham a mesma sugestão de instruções. No
texto que escreveu para o catálogo de Do It Yourself, o próprio Manuel António Pina
assinala: “A casa [...] é [...] o lugar da memória. Mas também a memória é construção,
paisagem construída (há uma discreta ironia nas instruções de construção com que
Joana Rêgo acompanha o seu do it yourself [...])” (2004: s/p). Ora, se no poema de Pina
encontrámos vários imperativos, a exposição de Joana Rêgo intitula-se Do It Yourself, e
esta mesma instrução aparece escrita em diversas telas (por exemplo, To Arrive where We
Started, Dwelling Places, Knowing the Places for the First Time e dois quadros intitulados,
precisamente, Do It Yourself). A pintura interpela assim o observador, convidando-o a
tornar-se também criador de formas: casas, barcos, aviões de papel. Além disso, se o
poema de Pina explica, passo a passo, como se desenha uma casa (abrindo uma porta,
escrevendo palavras antigas na tela, etc.), a pintura de Joana Rêgo inclui instruções, de
novo passo a passo, para a construção de um origami. Talvez, em suma, a construção do
poema como manual de instruções responda à proposta de pintura como instrução de
montagem de casas, barcos, aviões.
“Concreção e abstração, plasticidade e linguagem, dentro e fora são elementos
constitutivos e indicativos formais do que virá a ser esta casa, sintetiza Paola Poma num
artigo (2020: 132) que parte precisamente de Outside/Inside para ler Como se Desenha
uma Casa. A casa a haver (mas nunca há realmente uma casa, somente a pintura da casa,
o desenho da casa, a escrita da palavra “casa…) implica este diálogo entre linguagens,
um poema que revisita uma tela, as instruções de uma pintora (que também inscreve
palavras nos seus quadros) inspirando as instruções de um poeta (que promete ensinar
a desenhar nos seus poemas). Diálogo interartístico, entre artistas – que convoca ainda
o receptor através de instruções: do it yourself, protege-te das recordações, usa cores
morosas, desenha a casa como quem embala um remorso. E ainda, subtilmente: dobra
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Lição de poesia e desenho
uma folha de papel, regressa à infância, procura as palavras mais antigas na profundidade
de uma tela. E talvez mesmo: desenha uma porta, depois abre-a e entra.
3. Regressar a casa
Regresso então mais uma vez ao título do livro de Manuel António Pina (e do primeiro
poema desse livro), Como se Desenha uma Casa, para lembrar que o imaginário da casa
atravessa toda a poesia do autor. Logo no primeiro livro de poesia, Ainda Não É o Fim
Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas um Pouco Tarde, lê-se esta confissão elegíaca:
“faltas-me tu poesia cheia de truques. / [...] / Porque te perderei para sempre como / o
viajante perde o caminho de casa” (Pina 2013: 13). Neste primeiro uso do vocábulo, a
casa” perdida já permite uma reflexão metatextual: é para dizer a perda da poesia que
se evoca a casa inacessível; e decerto outros usos do mesmo vocábulo, ao longo de toda
a obra, servem uma reflexão sobre a linguagem, e as suas ruínas.
Dito por outras palavras, a casa nunca é garantida, e a linguagem também não. A casa
é o lugar que se perde, para o qual se caminha, aonde se regressa, que eventualmente se
atinge ao fim de uma difícil jornada, e que se pode perder outra vez. Mais do que fundação
segura ou abrigo certo, a casa revela-se frágil, ameaçada. Sem poder ser exaustivo,
recordo alguns exemplos. Em Nenhum Sítio, num poema chamado precisamente “O
caminho de casa, lê-se: “O que foi perdido / ficou eternamente / sobre o coração como
a sombra de outra pessoa” (2013: 104), e, mais disforicamente, “Os amigos partiram. /
Fomos todos embora. / Quem ficou aqui e onde, / e fala de isto agora?” (ibidem). Em
1989, Pina publica um livro chamado O Caminho de Casa; o último poema do livro, com o
mesmo título, interroga tanto a identidade do sujeito quanto a possibilidade do regresso:
“Como não estarei / nem não estarei / em nenhum sítio, voltando / absolutamente para
casa?” (2013: 150). Em Cuidados Intensivos (1994), na secção intitulada “Monólogos”,
existe uma sequência de doze poemas também chamada “cuidados intensivos”; o último
poema dessa sequência inclui um título entre parênteses rectos: mais uma vez, como
que obsessivamente, “O caminho de casa”. Cito-o na íntegra:
XII
[O caminho de casa]
«As palavras fazem
sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),
um sentido justo,
feito de mais palavras.
(A impossibilidade de falar
e de ficar calado
não pode parar de falar,
escrevi eu ou outro).
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Pedro Eiras
Volto a casa,
ao princípio,
provavelmente um pouco mais velho.
As mesmas árvores,
mais velhas,
a lembrança delas
passando sem tempo nos meus olhos,
como uma ideia feita ou como um sentimento.
Entre o que regressa
e o que partiu um dia
ficaram palavras;
talvez (quem sabe?)
algum sentido.
Agora, como um intruso, subo as
escadas e abro a porta; e entro, vivo,
para fora de alguma coisa morta.
Senta-te aqui, fala comigo,
faz sentido
e totalidade à minha volta!»
(2013: 205-206)
Talvez este poema possa ser lido num tom menos disfórico do que aqueles que
citei anteriormente? Afinal, agora o sujeito diz que “As palavras fazem / sentido [...], / um
sentido justo, e que volta a casa; no fim do poema, inclui instruções claras para um(a)
interlocutor(a), apostando na possibilidade do diálogo: “Senta-te aqui, fala comigo, /
faz sentido / e totalidade à minha volta!. Ainda assim, o “sentido justo” das palavras
é apenas “feito de mais palavras”: não há como atingir o mundo além da linguagem.
Mesmo o regresso parece ser menos um reencontro de si próprio do que uma experiência
de diferimento ou multiplicação: “Entre o que regressa / e o que partiu um dia / ficaram
palavras”; decerto por isso o próprio sujeito se sente menos como o habitante da casa,
Ulisses ou filho pródigo regressado, do que como um “intruso. (Aliás, que sujeito é este,
enunciando um “monólogo, entre aspas, como que teatral?)
A casa parece elidir-se sempre: não há desenho, instrução, metapoema que possa
assegurar a habitação; pelo contrário, a casa é apenas desejo, fantasia, devir, memória.
Em Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, Manuel António Pina reconhece: “Volto,
pois, a casa. Mas a casa, / a existência, não são coisas que li?” (2013: 275). Aquele que,
como Mallarmé, leu todos os livros, hélas!, sabe que a casa é inatingível, e que apenas
a palavra permite uma instável tentativa de habitação. Lendo a obra poética de Pina,
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Lição de poesia e desenho
Rui Lage chega a encontrar nos últimos livros um ponto de chegada disfórico, céptico:
“Dir-se-iam as duas obras finais, Os livros e Como se desenha uma casa, elegia das obras
antecessoras, pois se nestas sangrava a incoincidência do eu consigo mesmo, embaciado
nos espelhos da linguagem, se nestas falava o que faltava, agora até mesmo o que era
dito negativamente se cansou de negar” (2016: 94). E é certo que existe uma sugestão de
efectivo regresso em Como se Desenha uma Casa: “Como quem, vindo de países distantes
fora de / si, chega finalmente aonde sempre esteve / e encontra tudo no seu lugar, / [...]
/ Entra então pela primeira vez na sua casa / e deita-se pela primeira vez na sua cama
(Pina 2013: 351); mas qualquer regresso é sempre ensombrado pela consciência de que
“Uma casa é as ruínas de uma casa” (347).
E todavia, mesmo nesse instante de disforia, tudo recomeça outra vez, porque “se
calhar a única maneira de construir é sobre ruínas. Uma espécie de Sísifo, sempre a
recomeçar”, diz Manuel António Pina (2016: 198) na entrevista concedida a Carlos Vaz
Marques. Aliás, não deixa de ser interessante pensar que essa casa, em vão procurada de
livro em livro, pode afinal ser não encontrada, mas desenhada. E importa não considerar
esta solução como menor; conforme afirma Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz”
(2003: 168). No último livro de Pina, Sísifo aprende a desenhar.
A casa, repetida de livro em livro (um pouco como Joana Rêgo repete os ícones
de tela em tela, em Do It Yourself, modo de sistematizar algumas obsessões pessoais,
ou de as submeter a glosas e variações), nunca realmente estabiliza: a casa é perdida,
reencontrada, estranha e familiar, inatingível e, contudo, sempre, necessariamente
perseguida.
4. Algumas instruções para isto, mas para quem?
O jogo entre desejo, projecto e consciência do diferimento da experiência na
linguagem não deve, portanto, conduzir a uma lição de cepticismo. Pelo contrário: de
livro em livro, o sujeito constitui-se no acto de demandar a casa impossível; e se a casa se
furta, a demanda pelo menos é absolutamente real. O livro Como se Desenha uma Casa
vai ainda mais longe, convidando o interlocutor (ou um reflexo do próprio sujeito?) a
desenhar a casa perdida. Será preciso, então, regressar às instruções de Manuel António
Pina, a esse “gesto intencional, quase testamentário, de inscrever no título de um livro (o
último livro de poemas) uma frase simulando uma instrução ou um ensinamento: Como
se desenha uma casa, nas palavras de Gustavo Rubim (2020: 42). Será preciso regressar
a esses verbos no imperativo, que convidam a criar uma casa.
Na verdade, há muitas outras instruções (ensinamentos, injunções, máximas)
na poesia de Manuel António Pina, desde o primeiro livro. Podem ser contraditórias
ou paradoxais, como este exemplo de Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma É Apenas um Pouco Tarde: “E vós também: não me faleis de nada ou falai-me.
/ Porque não sabeis o que dizeis” (2013: 14). Podem dirigir-se a um misterioso tu, que
talvez seja o próprio sujeito, habitado por um deus: “Ouve-o dentro de ti, ao deus,
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Pedro Eiras
/ cantando luminosamente à tua volta”, lê-se em Nenhum Sítio (2013: 126). Podem,
ainda, constituir uma arte poética, como neste poema de Nenhuma Palavra e Nenhuma
Lembrança:
A UM JOVEM POETA
Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
(2013: 274)
Tal como não fui exaustivo – longe disso! – na recolha de referências a casas na poesia
de Pina, também aqui apenas colijo alguns poemas que incluem instruções, injunções,
ensinamentos ou preceituários. O enunciador destes textos dirige-se a um tu ou a um vós,
instruindo, sugerindo ou ordenando. Mas essa enunciação dificilmente constitui um lugar
de simples autoridade; pelo contrário, inclui um princípio de incerteza, que não permite
garantir qualquer resultado. Ao contrário de artes poéticas normativas, alicerçadas em
inabaláveis certezas – penso imediatamente do tom convicto da Epístola aos Pisões, de
Horácio –, o poema “A um jovem poeta” de Manuel António Pina relativiza a instrução com
um trabalho da dúvida. Por um lado, claramente, ensina: “Procura a rosa”. Mas, por outro,
duvida: “pode ser // que em prosa ela floresça”, “pode ser [...] que [...] / te reconheças”,
“Talvez possas então / escrever sem porquê. Pode ser, escreve Pina, mas não é certo.
Ora, essa incerteza não deve paralisar a busca. Pelo contrário, existe uma lição importante
nestes versos de Os Livros: “e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras / pois é tudo
o que tens: literatura, / nem sequer mistério, nem sequer sentido, / apenas uma coisa
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Lição de poesia e desenho
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hipócrita e escura, o livro” (2013: 299). Talvez as palavras sejam coisa pouca, e a literatura
não passe de hipocrisia ou fingimento (como se sabe, pelo menos, desde Baudelaire e
Pessoa); e, todavia, quando o viajante se perde no caminho para a
casa inatingível,
somente essas palavras podem mitigar um pouco a sede.
5. Uma casa desenhada não é feita de pedra
Regressemos uma última vez, para terminar, ao livro Como se Desenha uma Casa,
mais exatamente à primeira parte do poema “talvez de noite”:
À minha volta tudo envelheceu
como se fosse eu, e no entanto
uma casa, ou um espaço em branco
entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.
Pois nada
surge com a sua própria forma.
Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,
a lembranças extenuadas,
às trevas do corpo, lúcidas,
latejando na obscuridade de quartos interiores.
E digo ‘palavras’ porque
não sei que coisa chamar
à mudez do mundo.
E digo ‘sentido’ sufocado
sob o pensamento
tentando respirar
a golpes de coração,
agora que se desmorona a casa
sobre todas as palavras possíveis.
(2013: 361)
“e no entanto / uma casa, ou um espaço em branco / entre as palavras, ou uma
possibilidade de sentido, diz o poema, preservando apesar de tudo a possibilidade de
uma casa. É certo que a linguagem peca por imprecisão: “casa” é apenas uma palavra
possível para dizer aquilo que é obscuro, e “palavras” uma solução do recurso perante a
enigmática realidade – nos versos “E digo ‘palavras’ porque / não sei que coisa chamar
/ à mudez do mundo” ainda ecoa um célebre ensinamento do Dao De Jing, que Manuel
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António Pina glosa em numerosos poemas: “Porque não sei o seu nome, chamo-lhe
Dao” (§25). Enfim, os versos “agora que se desmorona a casa / sobre todas as palavras
possíveis” podem parecer disfóricos, com a ruína iminente; mas note-se que terminam com
a menção às “palavras possíveis”, à possibilidade, apesar de tudo, da escrita. Aquilo que
condena a linguagem aos seus limites é também aquilo que abre a linguagem ao
ilimitado. E
quanto à segunda estrofe – “Pois nada / surge com a sua própria forma” –, constituída por
versos de Paul Celan (citados em epígrafe do livro algumas páginas antes), talvez sugira
que as coisas só ganham forma para nós, seres humanos, seres de linguagem, quando
as nomeamos. “Os limites da minha linguagem significa os limites do meu mundo, avisa
Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus (1995: §5.6). Mas compreendemos agora
que esse limite tem a forma de uma casa.
Ou seja: não paramos de oscilar entre intuição da realidade e incerteza da linguagem,
diferimento das coisas e tentativa de desenho, sem saldo assegurado nem falência
inevitável de todo o sentido. Por isso Danilo Bueno considera que devemos ler “Como
se desenha uma casa” enquanto “um poema reflexivo e memorialístico, permeado pela
passagem do tempo e pelo transitório, temas líricos por excelência” (2023: 82), decerto
não sem melancolia; ao passo que Rita Basílio descreve a poesia de Pina em termos
de uma obstinada procura feliz: “Paradoxal alegria esta, a daquele que ama o que está
sempre ainda por começar em tudo o que já acabou” (2013: 290).
Para concluir, regressemos uma última vez ao poema “Como se desenha uma casa.
Também aqui existe esse mesmo jogo entre linguagem e mundo, entre domínio técnico
do desenho e embate contra o caráter inatingível das coisas. Comecei por dizer que
este poema se estrutura como um conjunto de instruções, lição de desenho através de
palavras. Lição de palavras, portanto. E é certo que se pode desenhar uma casa, “abr[ir]
a porta / por dentro sobre a tela imatura onde previamente / se escreveram palavras
antigas” (Pina 2013: 347), sim. Aquele que desenha pode proteger-se “das recordações,
/
dos seus ócios, das suas conspirações”, usar “cores morosas, tons mais-que-perfeitos”
(ibidem), seguir minuciosamente as instruções do poema. Mas tudo o mais – e talvez
seja o essencial – escapa ao domínio técnico de quem desenha: o iluminar das flores da
macieira, a agitação das recordações. E de que modo se desenha uma casa “como quem
embala um remorso”? Afinal, talvez a casa não seja o resultado certo de uma ciência
do desenho, mas “uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra, um acontecimento
tenso, enigmático, assustador para aquele que a desenha. Desenhar a casa, regressar a
ela (tanto tempo perdida), não é uma lição de extremo rigor: é preciso desenhá-la “com
algum grau de abstração e sem um plano rigoroso” (ibidem). Sem um plano rigoroso:
depois das instruções, o desenho mergulha no desconhecido.
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Lição de poesia e desenho
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NOTAS
* Pedro Eiras é Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e
Investigador do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, onde coordena a equipa de pesquisas
Intermedialidades. Desde 2005, publicou numerosos livros de ensaios sobre literatura portuguesa dos séculos
XX e XXI, estudos interartísticos, questões de ética. Entre os mais recentes: O Conhecimento das Trevas, sobre
Herberto Helder e Georges Bataille (2024), A Linguagem dos Artesãos, sobre o imaginário do fim do mundo
(2022), e Constelações 1, 2 e 3, ensaios comparatistas (2013, 2016, 2021). Com Esquecer Fausto (2005) ganhou
o Prémio Pen Clube Português de Ensaio. Presentemente, desenvolve pesquisas sobre a representação e o
imaginário do fim do mundo.
Agradeço à artista plástica Joana Rêgo todo o generoso diálogo sobre a sua amizade com Manuel António Pina
e as pinturas que constituem o ciclo Do It Yourself.
*
Este artigo foi escrito no âmbito da investigação desenvolvida no Instituto de Literatura Comparada, Unidade
I&D financiada por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Segue a
ortografia anterior ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990.
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